Ao escrever o último artigo, sobre a viagem de Leão XIV a França, além dos textos dos discursos, disponibilizados pelo Vaticano, procurei as reportagens de vários meios de comunicação. Aprendi muito! Fiquei a saber de histórias comoventes, vi imagens e vídeos incríveis, pela emoção e o conteúdo. A dificuldade foi seleccionar, entre tanto material interessante. Noutros órgãos de comunicação, não aprendi nada sobre a viagem, mas dei-me conta do poder do ruído.
Introduzir ruído nas comunicações tornou-se uma arma militar de grande efeito e algo parecido acontece na vida social e cultural. Antes, enganavam-se os adversários, agora, usa-se também o ruído, Uma forma de um meio de comunicação social silenciar um acontecimento significativo é noticiá-lo com tanto ruído que o público tenha a sensação de ter sido informado sem ter tido qualquer contacto com a realidade. Posso partilhar alguns exemplos.
A notícia, com pormenor e fotografia, de um Presidente da Câmara a oferecer ao Papa uma raquete de tênis, com a descrição exaustiva da raquete, de quem a fez, etc … O leitor julga receber informação a mais, quando na verdade lhe omitiram o que o Papa disse. Talvez propositadamente, as fotografias ilustram a raquete, alguns bispos e membros da escolta policial e nenhum povo.
Outros exemplos desta técnica de substituir o tema principal por assuntos laterais sem grande interesse, são reportagens sobre indivíduos excêntricos: o nome, a idade, em que povoação vivem, a que horas chegaram…, com fotografias e mais detalhes sobre os indivíduos.
Um exemplo de ruído com mais manha é a fotografia de um «écran» de televisão diante do Centro Pompidou, a transmitir a Missa… Só que essa Missa se está a celebrar noutro local e aquele aparelho é apenas mais um dos espalhados pela cidade. Para quem não reparar nisso, a imagem parece sugerir que quase ninguém se deslocou para ouvir o Papa. Mais uma vez, as palavras do Papa estão ausentes.
A fotografia menos sutil que encontrei mostra um auditório completamente vazio, a meia luz, acompanhada de uma legenda segundo a qual Leão XIV se encontrou ali com as autoridades europeias. O discursos ficaram de fora, como é habitual nalguns jornais. Talvez, neste caso, a intenção de desvalorizar o acontecimento seja tão acintosa que só um ateu militante aprove a opção editorial.

Analisando os vários modelos de comunicação, tirei algumas conclusões. Parece-me que ninguém é enganado pela imagem de um auditório vazio, onde nem sequer está o Papa. Ao ver umas poucas pessoas a assistir à Missa diante de uma televisão, talvez bastantes concluam que a cerimónia suscitou pouco interesse, mas os leitores que perceberem essa mensagem manhosa ficam aborrecidos contra o jornal por os ter tentado enganar.
A modalidade que parece mais perigosa é a do ruído. Apresenta factos reais, inclusivamente com tal abundância de pormenor que é o próprio leitor quem já não quer saber. Se a pessoa não está muito prevenida, nem se deu conta de que o assunto verdadeiro nem sequer chegou a ser apresentado.
Voltamos a encontrar a técnica do ruído naqueles jornais que nunca reproduzem uma mensagem significativa da Igreja e, de repente, para compensar, multiplicam as notícias sobre a estadia do Papa na clínica. Os leitores desprevenidos julgam que lhes ofereceram uma quantidade equilibrada de informação religiosa. E, realmente, não deram absolutamente nenhuma informação religiosa.