Ivan, o Terrível, após atingir seu filho num acesso de fúria (Ilya Rupin – State Tretyakov Gallery em Moscou)
Ando sempre antenado em bons autores e títulos que provoquem interesse. Por conta disto estou a esperar a chegada de “A república tecnológica”, de Alexander Karp e Nicholas Zamiska. Karp é fundador e CEO da Palantir – referência mundial nas áreas de software, análise de dados e inteligência artificial,- e Zamiska é conselheiro jurídico na referida empresa.
Li o prefácio e o primeiro capítulo da obra, que alerta para a chegada de “um momento de ajuste de contas para o Ocidente. A perda da ambição nacional norte-americana e do interesse do potencial da ciência e tecnologia e o resultante declínio da inovação governamental em diversos setores – da medicina às viagens espaciais e aos softwares militares – resultaram em uma lacuna de inovação”.
Segundo os autores, por conta de um voto de fé no mercado, o Estado retirou-se da busca de avanços em larga escala e delegou ao setor privado o desenvolvimento de tecnologias pioneiras. Por conta disto o Vale do Silício concentrou sua energia em “produtos de consumo restritos, em vez de projetos que abordam e se encarregam de nossa segurança e bem estar em termos mais amplos”.
Os autores criticam o foco da indústria de tecnologia que direcionou capital e talento para o trivial e o efêmero: “A estrutura ética predominante do Vale do Silício, uma visão tecnoutópica de que a tecnologia é a panacéia que resolveria todos os problemas da humanidade, deteriorou-se a ponto de se transformar em uma abordagem utilitária limitada e fraca, que lança os indivíduos como meros átomos em um sistema a ser gerenciado e contido”.
Também segundo eles “muitos líderes relutam em participar do debate, em se arriscar a articular uma crença genuína – uma idéia, um conjunto de valores ou um projeto político,- por medo de serem punidos na esfera pública contemporânea”. O primeiro capítulo chama-se “Vale perdido” e sua primeira frase é “O Vale do Silício perdeu o rumo”.
—————— x ——————-
Outro cofundador da Palantir chama-se Peter Thiel, graduado em filosofia com um doutorado em Direito. Investidor de ponta, conservador, no início deste ano realizou uma série de palestras em Roma discutindo o Anticristo bíblico e a possibilidade de um governo único. Como na obra de Vladimir Soloviov, Thiel acredita que o Anticristo não se apresentará como um vilão estereotipado ou destrutivo, mas sim de forma sedutora. Aproveitar-se-á de crises globais para oferecer paz em troca de submissão e controle global.
As palestras de Thiel têm ocorrido em ambientes restritos e, segundo se sabe, o tópico mais controverso delas é a associação de regulação tecnológica, particularmente sobre a inteligência artificial, com narrativas apocalípticas de um governo global.
Contestado como um “teólogo político”, suas idéias batem de frente com a concepção de que líderes de tecnologia não devem definir seus limites éticos, a serem implementados pela sociedade, garantindo seu controle democrático.
—————— x ——————-
Ateu convicto desde a infância, Bukharin tinha sonhos apocalípticos. Numa noite visitara o inferno, em outra temera pela queda de um cometa e num de seus pesadelos sofrera pela queda de blocos de gelo gigantescos. Acordava banhado em suor. Lia tudo que lhe caía nas mãos, de Heine e Harriet Stowe a Molière ou Puchkin, e sua precocidade lhe valia críticas de uma avó que se escandalizara com seu ateísmo: “É um velho, olhem só para ele! É um velho perfeito, sabe de tudo que não deveria saber”.
Tais revelações fazem parte de “O romance do cárcere”, autobiográfico. Kolia, apelido de Nikolai, é o protagonista. Ele tem seu mundo revirado por frequentes mudanças da família, que passa por apertos, inclusive de fome. Desde cedo observa o abismo entre abastados e desvalidos, como ao registrar uma visita à casa de uma proprietária de terras, amiga de um dos irmãos de seu pai, médico, com o qual residiu por curto período:
“Das paredes, olhavam antigos retratos dos brilhantes antepassados, com faixas e estrelas. O assoalho cintilava. A prataria e os cristais tiniam. Soava língua francesa refinada. Brilhavam olhares lânguidos. Toalhas brancas como neve forravam as mesas. À primeira vista era imperceptível como estavam impregnadas de lágrimas e sangue … Lágrimas e sangue …”.
Ao buscarmos na rede mundial alguma informação sobre Nikolai Bukharin descobrimos que foi um revolucionário russo, descrito por Lênin como o “teórico mais valioso e importante”, e que foi ativo no governo soviético entre 1917 e 1937.
Ele e Stálin derrubaram Trótski, Zinoviev e Kamenev. Foi secretário-geral da Internacional Comunista, mas em 1929 foi expulso do Politburo. Na Grande Purga foi acusado de deslealdade por conta de cartas e ligações telefônicas grampeadas. Foi preso em 1937 sob a acusação de conspirar para a derrubada do regime soviético. E executado em 1938.
Bukharin escreveu o romance “ao correr da pena e sem nenhuma revisão” na prisão de Lubyanca, exaurido por longos interrogatórios. Não conseguiu concluir a história de Kolia, como a mais famosa vítima da Era do Terror.
Reproduzo o final do texto da orelha da edição:
“Apesar das metáforas, O romance do cárcere teve o mesmo destino que os outros três livros que Bukharin escreveu em sua temporada no inferno – os arquivos secretos de Stalin, onde foram mantidos por longos 54 anos. Mas o criador e a criatura, amalgamados com a liga das obras-primas e acima de tudo dos grandes heróis da história, resistiram incólumes à passagem do tempo”.
Na esteira dos tantos crimes atrelados à história do comunismo, é de se perguntar por que não é proibido em todos os quadrantes da Terra. Como o nazismo o é.