Funeral de Rommel pelas ruas de Ulm em 18 de Outubro de 1944
Nunca tive muito interesse pela Segunda Guerra Mundial, mas o tempo e as viagens ajudaram a aprender um pouco, sobretudo pelos estragos causados na Europa, pela tomada de parte da Alemanha pelos russos e pela extraordinária recuperação deste país que fora reduzido a ruínas.
Os campos de concentração de Dachau e Auschwitz, a sala do julgamento de Nürenberg, Berlim e seu Arco de Brandemburgo e o Reichstag, a cidade incendiada de Dresden e outros tantos pontos que testemunharam o desatino humano. É impossível não refletir sobre um conflito que deixou milhões de mortos.
Dentre os militares alemães cujos nomes mais escutei figuram Stauffenberg, coronel fuzilado no dia seguinte ao atentado fracassado contra Hitler, em julho de 1944, Hermann Göring, chefe da Luftwaffe, Himmler, líder da SS, e Erwin Rommel, comandante do Afrika Korps, no norte da África, conhecido como a ”Raposa do Deserto“ por conta de seu desempenho diante de forças superiores. Sabia que cometera suicídio, mas desconhecia os detalhes.
Num sebo paulistano adquiri “Memórias de Rommel” e, contrariando meus hábitos, logo busquei suas últimas páginas, na busca de explicações acerca de seu ato extremo. Pouco antes de morrer disse ao filho que o atentado contra Hitler fora estúpido e que o que de melhor poderia ter acontecido seria a ocupação americana e britânica, mantendo os russos fora da Alemanha.
Rommel havia sido gravemente ferido num ataque de vôo raso dos aliados e se recuperava em Herrlingen. Tivera a face esquerda esmagada e seu olho estava coberto por uma venda negra. Manfred Rommel, o filho, deixou um relato dos últimos dias do pai, sempre realista:
“E o pior é que tudo isto não tinha sentido ou finalidade. Não podemos fazer mais nada. Qualquer tiro que disparamos só nos pode prejudicar, pois recebemos cem por um. Quanto mais depressa isto acabar melhor será para todos nós”.
Manfred sugeriu que talvez houvesse novas armas, que pudessem mudar o rumo do conflito:
“Disparates. Ninguém possui tais armas. O único objetivo desse boato é obrigar o soldado comum a resistir um pouco mais. Estamos vencidos e a maior parte dos indivíduos nos círculos superiores sabem-no muito bem, ainda que não o queiram admitir. Eles não são tão estúpidos que não possam reconhecer os fatos, que qualquer pessoa pode contar pelos dedos de uma mão. (…) Nesse caso, o melhor é parar imediatamente. E é essa a nossa posição atual., com a exceção de que combatemos na frente leste um inimigo para quem não pode haver rendição. Aí, é uma luta pela vida, e este fato complica ainda mais a questão. O que agora devíamos era levar os nossos inimigos do Ocidente a ocuparem toda a Europa Central e a manter os russos do lado de lá das nossas fronteiras. (…) De que serviram os nossos melhores tanques e as divisões da elite na Normandia? Não, meu jovem, os americanos têm o comando do ar e conserva-lo-ão. Qualquer exército terrestre, por muito grande que seja, desde que tenha de lutar sem uma cobertura aérea apropriada está condenado à morte”.
O que mais me surpreendeu foi a informação de que Rommel – após um encontro com Hitler e Göring, em novembro de 1942, pouco depois da batalha de Alamein,- dissera à esposa que a guerra estava perdida e que um caminho diferente deveria ser adotado. A guerra começara em 1° de setembro de 1939 e na Europa terminaria em 8 de maio de 1945, ou seja, mais ou menos na metade do conflito o resultado já transparecia.
Rommel enviou um relatório ao Grupo de Exércitos alemão detalhando que em 25 de julho de 1944 mil e seiscentas fortalezas voadoras deixaram na região de La Chapelle-em-Juger uma paisagem lunar, com soldados que “enlouqueceram e correram para campo aberto até serem desfeitos pelos estilhaços”. As mensagens que enviou para sua esposa atribuíam o desastre sobretudo à superioridade aérea do inimigo.
Mas voltemos aos últimos dias de Rommel. Havia rumores de que alguns homens da Gestapo estavam nas redondezas para observar tudo que se passava na sua casa. Por volta das doze horas do dia 14 de outubro de 1944 um carro estacionou na frente da mesma e dois generais desceram. Conversaram reservadamente com Rommel que, ato contínuo, informou sua esposa que morreria em um quarto de hora e ao filho deu instruções:
“É duro morrer pela nossa própria mão. Mas a casa está cercada e Hitler acusa-me de alta traição. Em virtude dos meus serviços em África, dão-me licença para morrer envenenado. Os dois generais trouxeram veneno. Mata em três segundos. Se eu aceitar, nada sucederá à minha família, isto é, a ti. Deixarão também em paz o meu Estado-Maior”.
Diante da indignação do filho, Rommel disse que tudo fora “preparado até os mínimos pormenores. Terei um funeral adequado. Pedi para ser em Ulm. Dentro de um quarto de hora, tu, Aldinger (capitão veterano da guerra), receberás um telefonema do hospital Wagnerschule em Ulm e dirás que eu sofri uma comoção cerebral”.
Rommel, calmo, apertou a mão de Aldinger e do filho e entrou no carro, seguido pelos generais.
O carro parou numa colina, a algumas centenas de metros. O motorista e um dos generais desembarcaram. Minutos depois, Burgdorf, o general que permaneceu com Rommel, os chamou. A tarefa estava concluída.
A título de curiosidade, Burgdorf suicidou-se em Berlim em abril de 1945, a poucos dias do final da guerra em solo europeu. A história não poupa ninguém.