Vivemos em um palco de teatro

Eles entram cantando e pregando: é chegada a hora, o fim está próximo. Também entro e subo para os andares superiores do Theatre, olho uma porcelana chinesa e as plantas, depois vou sentar na última fila da plateia. Fico contemplando a abóbada de pinturas alegóricas, muito verde e dourado com um lustre de bronze […]
No Igarapé do Mindu

Raimunda tinha picado a mula sem mais e eu estava ali sem abrir a boca, numa apatia adubada pelo cansaço. Aí com um olhar diferente Iara me convidou para dormir em sua casa. Me disse que morava perto do Igarapé do Mindu, onde a gente pode tomar banho. Pra me interessar, Iara contou que […]
Tudo é sombra e pó mexido…

Abracei e voltei a abraçar três vezes o Ronaldo. A gente tinha se reencontrado por acaso, na saída do cinema Guarani. Agora ele ia voltar a Belém junto com os universitários. Dentro da nave branca, que ainda não partia, levamos um último papo, sobre o que cada um ia fazer da vida, dali por […]
Como um espelho interior

Passamos por Parintins. Água e floresta, cenários da natureza com ar de pintura expressionista… Como uma velha árvore à beira d’água. Não mais a árvore, apenas o esqueleto esbranquiçado e hirto. E mais na frente a multidão das garças – brancas e pretas – penduradas em árvores alagadas. Bocomoco me emprestou o livrinho com o […]
Cortesia desambicionada

A universitária mais bonita no navio se chama Isa e me fez lembrar um comentário do Rui Gaitonde, sobre os últimos vestígios da belle époque borrachal, que ainda se veem em mulheres da classe alta paraense. Ela tem toda uma pose aristocrática nos gestos, no olhar e na voz. E não se mistura. Se mantém […]
Doce de buriti
Acordei com alguém bulindo no saco de dormir. Já estava todo mundo de pé no convés, fui fazer a fila do café. Na minha frente estava o Marcondes, com as mãos nos bolsos. Ele tem um pouco mais de um metro de altura e a voz e as feições são de um guri de oito […]
Um aeronauta no cisne branco

Cruzamos a ponte e todo mundo tirou a roupa pra tomar banho no igarapé. Eu estava receoso por causa do sangue dos meus ferimentos, mas me asseguraram que não havia piranhas ali. Na volta para o barco alguns botos escuros surgiram na superfície das águas. (Na turma da operação tem três que são da Guanabara, […]
Contornando a Ilha de Marajó

O Lauro Sodré é um navio de casco metálico branco, com setenta metros de comprimento por uns doze metros de boca. Foi fabricado na Holanda, possui dois motores e duas hélices de bronze. Quando entrei no navio, já estavam embarcados os passageiros de primeira e segunda classe, mas a turma de estudantes ainda não tinha […]
O tempo nos sobrevoa

Dos dois conceitos de tempo da cultura grega clássica, um é Cronos (Saturno para os romanos), o tempo cuantitativo, medido pelos relógios, pelos calendários. É o deus tenebroso que engendra filhos para em seguida devorá-los vivos… O tempo que vai a cada instante devorando nossa existência… Que nos injeta a noção (noção falsa, como a […]
O mais caipora dos caipiras

“Os Últimos Dias de Carlos Gomes”, de Domenico De Angelis e Giovanni Capranesi (1899) Peguei minhas tralhas e me toquei pro Porto do Sal, uma das docas de Belém, o alemão veio junto. Chegando lá o dono do barco que prometeu me levar a Breves nos encaminhou ao porto Sabá-Lusa, outra doca, de onde […]
No Palácio da Condor

Mammy Blue. É impossível não aprender essa música, mesmo que não queira, o rádio toca e toca, em todo lado. Tava no Parque Kennedy fazendo um som, veio um rapaz chamado Cré e me pediu pra tocar o Mammy Blue. Depois me trouxe pra casa dele, mora com a mãe viúva e o irmão Laerte, […]
Declaração de amor

Quando eu era guri, gostava de subir com o dedo no mapa, do sul até os confins da pororoca e do peixe-elétrico. Agora avanço paralelo à Linha de Tordesilhas, penetrando no ventre da floresta parideira de cobras, pressentindo as raízes apodrecendo nos igapós e os rios cansados inchando as barrancas gosmentas… De repente saiu […]
Vida, insopitável mistério
No outro dia a Nô veio pela tarde e continuamos o trabalho, eu cada vez mais fissurado pela ideia. A coluna foi atacada, nas proximidades do rio Araguaia, ela conta. Bicho-grilo foi ferido e gritou aos companheiros, que não sabiam o que fazer: – Não se detenham por mim, a nossa causa é o que […]
Foi tudo um sonho

– Os vietnamitas fazem parte de uma coluna e vão retomar sua marcha na madrugada, margeando o rio Mekong, levando suprimentos para os companheiros em Tân Châu – continua Nô. As horas tinham se passado e de repente Bicho-grilo lembra que tinha de voltar ao aeroporto e seguir viagem para Katmandu… Um cansaço indizível vai […]
Aquele que ilumina

Nô continua me descrevendo o primeiro ato, o personagem voa para Paris e lá consegue uma passagem para o Nepal, fazendo escala no Camboja. Ele chega em Phnom Penh com o dia amanhecendo, e tem doze horas livres antes de continuar o voo. Ele resolve passear um pouco e encontra um grupo de orientais falando […]
O Viajante Resolvido

– No cinema os ianques estão ganhando a guerra, comandados pelo canastrão John Wayne. Mas na verdade, de nada adiantou enviar mais de meio milhão de soldados, bombardear 26.000 aldeias vietnamitas com Napalm e com o Agente Laranja, que a Monsanto produziu para matar, provocar câncer, contaminar a água e destruir o meio-ambiente…. Os soldados […]
O sacrifício do monge

Ela tinha acabado de concluir o curso de filosofia e estava preparando viagem, para uma extensão dos seus estudos de teatro, em países orientais, quando eclodiu a Primavera de Praga, que ela vivenciou nos seus primórdios. – Minhas preocupações intelectuais me levaram a estudar Filosofia, mas meu coração sempre foi das artes cênicas – Nô […]
O antes e o depois confluem
Almoçamos, Júnior pegou um maço de folhas mimeografadas e fomos para a boate. Lá já estavam os outros esperando, e ao entrar percebi pela primeira vez o grande espelho redondo pendurado na parede, que devolveu a luz da porta aberta e multiplicou os presentes. Júnior distribuiu as folhas de letras roxas cheirando a álcool e, […]
O leão de Buda

Imperatriz é a cidade que mais arrecada imposto no Maranhão, depois da capital. A maioria aqui são aventureiros, gente que vem de outros lados para trabalhar com madeiras ou no que seja e enriquecer o mais rápido possível. Ou se ralar e fugir o mais rápido possível. Há muita arma e pouco policiamento, volta e […]
Não me siga, estou perdido

Partimos de Grajaú e depois de uns cinquenta quilômetros enveredamos por uma estrada lateral que parecia mais uma trilha aberta na mata. Mata amazônica, bem entendido. O caminhão tem que varar os rios no peito e na raça, não há pontes. De vez em quando atola. Aí o motorista Genésio me explica como recolher galhos […]
O mico Riquimu
Para dormir procuramos a delegacia, na rua da Tarrafa, ao lado do bar do Delcio, o delegado nos cedeu um canto. Quando amanheceu voltamos para a estrada, muito poeirenta. Paramos no começo da ponte sobre o rio Grajaú. O sol estava belíssimo e as águas corriam tagarelas sobre musgos e pedras, lavadeiras também tagarelavam, batendo […]
Cenas na tela da memória
Miranda do Norte, São Mateus, Alto Alegre, Peritoró… Viemos aos pulos, com caronas que pintaram ou mesmo a pé, avançando do jeito que dava. Em Independência, um pequeno lugarejo, o delegado nos deu almoço. Aliás, parece que o Maranhão só aderiu mais tarde à independência, no começo não queriam se desligar de Portugal. Capinzal do […]
Falam mais alto as fontes borbulhantes
Dormi numa rede, na casa do Cae. Dona Genoveva anda meio arisca, não quer dar muita bandeira… O Danilo – que reapareceu e foi à Biblioteca me procurar – comunicou que a gente terá de se mudar para a outra casa do Barroso, nos arredores da cidade. É que vai chegar o namorado dele. Esta […]
Um passeio no submundo
O vira-lata deitado no pátio da Fonte ergue a cabeça ao me ver, e volta a baixar sem interesse. Na minha primeira noite nesta cidade dormi aqui, mas eu vinha dopado pelo cansaço, e entrei por uma janela que achei aberta, busquei um canto, me enfiei no saco de dormir e me apaguei, sem me […]
Caminhos subterrâneos
Há coisa de uma semana fui à praia do Olho d’Água, com Juliana. Caminhamos uns 40 minutos de São Luís até lá. Tem outra bem maior, perto do centro da cidade, mas é chata, vai muita gente. Essa que fomos é deserta, tem água e areias límpidas, e está rodeada de mata virgem, é capaz […]
Veneno perdido
Ainda não tinha conhecido uma mulher tão lida (e tão generosa!) como a Genoveva. Conversando com ela, perguntei: – Quem encarna melhor Rimbaud, um beatnik ou um hippie? – Os beatniks são intelectuais, eles saem pelas estradas com uma segunda intenção, a de colher material para algum livro -, ela explicou. Rimbaud foi um intelectual […]
Nunca existiu bombinha igual
– Como foi que a música entrou na tua vida? Se alguém me faz esta pergunta – que eu mesmo já me fiz em diferentes ocasiões, – a memória sem muito esforço vai oferecer uma resposta cabal. – Só pode ter sido na voz do seu Otto, nosso pai. Ele tinha um ouvido afinado e […]
No Boi de São João
Ontem à noite fui para a boemia – com Ronaldo e Cae, mais o Juca, namorado da Vanja. Levamos uma garrafa de pinga e a viola. Ficamos bebendo na frente do Palácio do Governo. É um prédio enorme, estilo neoclássico renascentista, se não me falha a memória de desertor da engenharia. Foi ali que nasceu […]
Toda lua é atroz, todo sol é amargo
Estamos já há quatro dias por aqui. Na Casa dos Universitários tivemos uma entrevista com o diretor e ele nos deu vales para comer no restaurante, até dia 18. As coisas vão se encaminhando. Vamos dar um pulo lá no correio, ver se tem carta na Posta Restante.Tá tudo em cima, vou contar qual é […]
No cemitério
O Armazém Licks estava orientado para o poente, e ao fim de cada dia de trabalho fechava suas portas e janelas, quando também o sol findava a jornada, se escondendo atrás do Morro da Pedreira (que chamávamos da Favela). À nossa frente só havia um terreno baldio sem construções, de modo que os olhos podiam […]
A redução fenomenológica
Saio da estação ferroviária e me toco para o ponto do ônibus, que me levará a Mainz. Caminho acionando os recursos do Zen e controlando os pensamentos – quando eles se desatam e me ponho a discursar mentalmente, vem a tontura, é batata. Mas de repente toda a minha parafernália meditativa é abolida por um […]
